quarta-feira, 10 de março de 2010

Retribuição - PARTE VI

Campanhas passadas e bem-sucedidas sugeriram-me imediatamente a estratégia a seguir. Eu iria levá-la ao Trader Vic's, um covil polinésio de delícias, com sua iluminação sugestiva, cantinhos mocós e bebidinhas aparentemente suaves, mas que despertavam como um vulcão a mais adormecida libido. Uma ou duas doses de Mai Tai e ela estaria madura para o abate. Uma mão em seu joelho. Um beijo súbito e molhado. Dedos entrecruzados. A bebida milagrosa faria sua mágica infalível. Nunca tinha falhado no passado. Mesmo que a vítima, tomada de sobressalto perguntasse que diabo eu estava tentando fazer, sempre se podia recuar graciosamente, pondo a culpa nos efeitos do demônio do álcool.
''Perdão'' - era um bom álibi -, ''acho que fiquei alterado pela bebida. Não sabia o que estava fazendo.''
É isso mesmo. Chega de papo furado, pensei. Estou apaixonado por duas mulheres, e não há nada de anormal nisso. Que importa se são mãe e filha? Maior ainda o desafio! Eu estava ficando histérico. Só que, bêbado de autoconfiança como estava naquele momento, devo confessar que as coisas não saíram exatamente como eu planejei.
Sim, fomos ao Trader Vic's numa tarde fria de fevereiro. Ficamos nos olhando nos olhos um tempão e dizendo coisinhas um para o outro, enquanto sorvíamos copos e copos daquela bebida branca e espumante - mas ficou por aqui mesmo. E isto aconteceu porque, apesar de já desbloqueado para ir até o fim, senti que a coisa destruiria completamente Connie. Foi mais a minha consciência de culpa - ou, digamos, meu retorno a sanidade - que me impediu de depositar minhas mãos sobre o joelho de Emily e concretizar minhas intenções abjetas. A súbita certeza de que eu estava apenas fantasiando loucamente e que, na realidade, amava Connie e nunca poderia me arriscar a feri-la, acabou por me derrotar. É isso aí: Harold Cohen era um tipo mais convencional do que ele próprio gostaria de admitir. E mais apaixonado por sua garota do que queria fazer crer. Esse tesão por Emily Chasen teria de acabar e ser esquecido. Por mais penoso que me fosse controlar meus impulsos pela mãe de Connie, a razão e a decência teriam de prevalecer.
Após uma tarde maravilhosa, que deveria ter sido coroada por flamejantes beijos nos grandes e convidativos lábios de Emily, pedi a conta e dei por encerrado o assunto. Saímos rindo do bar, caminhamos pela neve e, depois de levá-la até seu carro, observei-a sumindo no fim da rua, em direção à casa, enquanto eu voltava para sua filha com uma nova e profunda sensação de calor pela mulher que, toda noite, partilhava a minha cama. A vida é mesmo um caos - pensei. Os sentimentos são tão imprevisíveis. Como uma pessoa consegue ficar casada durante 40 anos? Para mim, isso parecia um milagre ainda maior do que a divisão do Mar Vermelho, embora meu pai, na sua ingenuidade, considere essa última façanha muito mais impressionante. Chegando em casa, beijei Connie apaixonadamente, confessei-lhe todo o meu amor e, naturalmente, fomos direto para a cama.

Woody Allen "Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.''

5 comentários:

Marília Lage. disse...

O Woody Allen é meio estranho e ainda muito tenso, ok. +_+

Marcus Gabriel disse...

você não viu nada. :9

Marília Lage. disse...

"Como uma pessoa consegue ficar casada durante 40 anos?"

Argh, ele que ainda não viu nada, é. Eu e o meu mô, para a vida toda, é. *------*

Marcus Gabriel disse...

só quarenta, amor? ):

*-*
te amo.

Marília Lage. disse...

Mtmtmtmtmt mais, ok. *-*