sexta-feira, 5 de março de 2010

Retribuição - PARTE II

As quatro semanas seguintes foram o paraíso. Connie e eu nos explorávamos ao fundo e nos deliciamos com cada descoberta. Ela era brilhante, excitante e deslumbrante; tinha uma imaginação fértil e suas referências eram eruditas e variadas. Era capaz de discutir Gramsci e citar pensadores hindus. Letras de Cole Porter? Sabia todas de cor. E, na cama, era desinibida, topava tudo - um autêntico espécime do futuro. Seria preciso ser absolutamente do contra para descobrir-lhe qualquer defeito. É verdade que ela costumava ser um pouquinho temperamental. Tinha o hábito de mudar de idéia nos restaurantes, depois de já feito o pedido há mais de 20 minutos. E, naturalmente, não gostava quando eu argumentava que isso não era exatamente justo para com os garçons ou o chef. Tinha também a mania de mudar diariamente de dieta, dedicando-se a cada uma com fanático fervor para trocá-la por outra no dia seguinte, apenas porque esta última estava em moda.
Não que Connie tivesse a mais remota grama em excesso - ao contrário! Seu corpo devia matar de inveja a mais bela modelo do Vogue, mas um complexo de inferioridade só comparável ao de Franz Kafka fazia-a debater-se com uma gigantesca autocrítica. Quem a ouvisse falar acharia que não passava de uma idiota balofa que nada tinha a ver com essa história de atriz, e muito menos interpretando Tchekhov. Continuei incentivando-a moderadamente, mesmo sabendo que, se o desejo que ela me despertava não era aparente pela maneira como eu fitava com adoração o seu corpo e o seu cérebro, nada que eu dissesse seria suficiente. 
Por volta da sexta semana do nosso relacionamento, sua insegurança chegou ao ápice. Seus pais iriam oferecer um churrasco, na sua fazenda em Connecticut, e finalmente eu iria  conhecer toda a sua família.
"Papai é um tesão", ela disse, suspirando, ''além de ser gênio. Mamãe também é linda. E seus pais?" 
''Bem, eu não diria exatamente lindos", admiti. Na realidade, eu não fazia uma idéia muito boa da aparência física de minha família, geralmente comparando os parentes de minha mãe a alguma coisa parecida com a família Adams. Não que não fôssemos íntimos e não nos gostássemos - apenas vivíamos brigando o tempo todo. Em toda a minha vida, não me lembro de um membro da família ter feito qualquer referência elogiosa a qualquer outro - tento chegado a suspeitar, certa ver, que isso vinha desde o tempo em que Deus fez aquele acordo com Abraão.
"Meus pais nunca brigam", disse Connie. "Podem ficar um pouquinho altos, mas são sempre carinhosos. E Danny também é ótimo." Irmão dela. "Quero dizer, meio louco, mas ótimo. Faz música."
"Estou ansioso para conhecer todos eles."
'' espero que não se apaixone por minha irmã caçula, Lindsay."
"Ora, ora..."
"Ela é dois anos mais nova que eu, brilhante e sensual. Todo mundo fica doido por ela.''
"Puxa, parece uma coisa!'', exclamei. Connie me deu um tapa no rosto. 
"Bem, não se atreva a gostar mais dela do que de mim", disse meio rindo, como se só assim pudesse expressar seu temor com graciosidade.
"Se eu fosse você, não me preocuparia", assegurei-lhe. 
"Promete?''
"Vocês são assim tão competitivas?"
''Não. Nos adoramos. Mas ela tem um rosto de anjo e um corpo que vou de contar! Puxou à mamãe. Sem falar num Q.I. que mais parece um placar de basquete, além de um fantástico senso de humor.''
''Você é linda!'', eu disse, beijando-a. Mas devo admitir que, pelo resto daquele dia, fantasias a respeito de Lindsay Chasen, uma gracinha de 21 anos, não saíam da minha cabeça.

Woody Allen "O mundo divide-se em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranqüilo. As pessoas más aproveitam bem mais as horas em que estão acordadas."

4 comentários:

Marília Lage. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marília Lage. disse...

Lindsay. *-* Hihi. Posta maaais! *o*

Marcus Gabriel. disse...

sou mais a minha de 14! ♥

Marília Lage. disse...

NHAAAAAAAAAAAAAAAC! *O* Sua mesmo, é. ♥