domingo, 7 de março de 2010

Retribuição - PARTE IV

Connie e eu nos juntamos ao churrasco, realmente animadíssimo. Fui apresentado a todos da família, um a um, à medida que eles iam chegando com seus amigos, e embora a garotinha Lindsay fosse realmente tudo que Connie havia dito - linda, charmosa, engraçada - não a preferi a Connie. Das duas, sentia-me ainda muito mais atraído pela mais velha. A mulher pela qual perdi irremediavelmente a cabeça naquele dia foi nada menos que a fabulosa mãe de Connie - Emily. 
Emily Chasen, 55 anos, robusta, bronzeada, rosto decidido, cabelos grisalhos, penteados para trás, e curvas firmes e suculentas que se expressavam com a leveza de um Brancusi. Sexy Emily, cujo sorriso largo e claro e riso franco e forte criavam à sua volta uma aura de calor e sedução irresistíveis!
Que protoplasma, os desta família! - pensei. Que produção em série de genes premiados! E coerentes também, já que Emily Chasen parecia sentir-se tão à vontade comigo quando sua filha. Parecia-me óbvio que ela curtia a minha presença, deixando que eu a monopolizasse, a despeito da presença de tantos outros hóspedes. Discutimos fotografia (seu hobby) e literatura. Ela estava lendo (e adorando) um livro de Joseph Heller. Estava achando-o engraçadíssimo e, enquanto enchia meu copo, dizia: ''meu Deus, vocês judeus são tão exóticos!''.
Exóticos? Ela devia conhecer os Greenblats. Ou o casal Shapstein, amigo de meu pai. Ou meu primo Tovah. Aquilo, sim, é que é exótico. Isto é, se pode ser considerado exótico alguém que vive dando conselhos a respeito da melhor maneira para combater a indigestão ou a que distância se deve sentar da televisão.
Emily e eu falamos horas sobre cinema, sobre minha vontade de escrever para teatro e sobre colagens. Era óbvio que aquela mulher tinha muitas aspirações criativas e intelectuais, as quais, por alguma razão, ainda não conseguira realizar. No entanto, parecia também que não tinha queixas da vida, já que seu marido, John Chasen - uma versão mais velha do homem que você gostaria de ver comandando seu avião -, viviam aos beijos e abraços, rindo e bebendo. Para dizer a verdade, em comparação com os meus pais, que tinham continuado inexplicavelmente casados durante 40 anos, Emily e John podiam ser comparados a Lynn Fontanne e Alfred Lunt. Meu pai e minha mãe, por sua vez, não conseguiam sequer discutir a temperatura sem se lançarem numa série de acusações mútuas, que quase os fiziam atirar-se às carótidas um do outro.
Quando chegou a hora de voltarmos para casa, eu me senti cheio de sonhos sobre Emily e não conseguia tirá-la da cabeça.
''São uns doces, não são?'', perguntou Connie, quando chegávamos a Manhatan.
''Muito'', concordei.
''Papai não é um tesão? Acho-o uma graça.''
''Hmmm.'' A verdade é que eu não tinha chegado a trocar dez frases com o pai de Connie.
"E mamãe estava fantástica hoje. Melhor do que há muito tempo. Ela andou gripada ultimamente.''
"É. Ela é uma coisa'', eu disse.
"As fotos e colagens que ela faz são muito boas também'', disse Connie. ''Gostaria que papai a incentivasse mais, em vez de ser tão careta. Mas essas coisas criativas nunca fizeram o gênero dele."
''Uma pena'', eu disse. ''Espero que não venha sendo muito frustrante para ela esse tempo todo.''
''Mas tem sido. E Lindsay? Não e apaixonou por ela?''
''Ela é uma delícia - mas não chega aos seus pés. Pelo menos, na minha opinião.''
''Estou mais aliviada agora'', riu Connie, dando-me um bislicão na bochecha. Supremo verme que eu era, não podia confessar-lhe, é claro, que era sua mãe que eu desejava ver de novo. Mas, enquanto dirigia, minha cabeça piscava e fazia bips como um computador, tentando bolar esquemas para desfrutar um pouco mais aquela maravilhosa mulher. Se você me perguntar aonde eu esperava que aquilo tudo iria levar, confesso que não fazia a menor idéia. Só sei que, enquanto dirigia por aquela noite de outono, tinha a impressão de que, em algum lugar, Freud, Sófocles e Eugene O'Neill deviam estar morrendo de rir.

Woody Allen "Eu era muito moço para ter um carro, então transava com as garotas no banco de trás da minha bicicleta.''

5 comentários:

Marília Lage. disse...

Woody Allen = muito tenso. '-'

Phellipe salaroli disse...

Mto bom, espera uma coisa total diferente nesta parte, me surpreendi

Phellipe salaroli disse...

Oq viria aser 'Escólios' ?

Marcus Gabriel disse...

um comentário crítico acerca de uma publicação literária. (?) sei lá! x_x

Marcus Gabriel disse...

asiuosouiaoiusauoisauoai
mô, você me mata, é! x)